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Sábado, 11 de setembro – parte 2

Óculos escuros, peita azul com a inscrição “Venice”, bermuda cinza nas canelas e um kéds tiozão. Destaque para a moda capilar: cabeleira alisada e levemente comprida, bigode fino complementado por formações humildes de pêlos abaixo dos lábios — tudo atormentado pelo branco do passar dos anos.

O responsável pelo baixo sinistro de um dos discos de punk-rock mais vendidos de todos os tempos, piloto do instrumento de um álbum símbolo do crossover, desce a escada cheio de marra, saudando a massa com um double hang loose.

Sem demora, Louichi Mayorga nota as figuras estranhas ao reino de seu backyard. Aproxima-se e, mais de um ano depois, nos apresentamos. Agora, pessoalmente. Surreal.

Eu, Abud e ele trocamos algumas palavras. Insisto para que o dono do pedaço fique solto, curta o barbecue. Mas, para a nossa grata surpresa, o fundador do Suicidal Tendencies parece mais interessado em conhecer a dupla de fãs brasileños malucos. Assim, enquanto o rockão pega firme durante a tarde de sábado, entramos no seio do lar dos Mayorgas.

Imediatamente, recorro ao velho quadro de recortes. Escaneio e vejo que há ali registros muito mais preciosos do que eu supunha. São fotos de bastidores da pré-história da banda, a maioria da turnê do Join the Army (parte delas será publicada aqui no blog).

Antes de examinar a peça com mais cuidado, pergunto se há mais material como aquele. “Boxes and boxes”, ele diz. A resposta, e a expectativa, me faz enxergar um pentagrama em chamas, semelhante ao do clipe de Possessed to Skate. “Amanhã eu mostro com calma”, completa Louie, indo em direção da sala.

Próximo da porta de entrada, o baixista saca as duas maiores recordações dos tempos de ST: o contra-baixo amarelo, utilizado na gravação do memorável disco de estreia; e o preto, companheiro na segunda (e, para ele, derradeira) aparição dos Cycos. Os dois, infelizmente, um tanto castigados pela inatividade.


Após alguns cliques para a posteridade, voltamos para a festa, à essa altura possuída pela malandragem. Lá fora, o embalo do Capiroto queima os alto-falantes e se espalha pelo coração de Venice.

Como era de se esperar, Louie se empolga com o grave brincando livre. Pede licença e assume, por algumas músicas, a posição que o consagrou. Contando ainda com a potente garganta de Caviar, vocalista do Horny Toad (grupo atual do ex-Suicidal), rolam algumas pedradas do Led Zeppelin.

O heavy-blues dos britânicos atiça o ambiente — um dos orgulhos de Louichi é possuir um pôster com firmas originais de Bohan, Jones, Page e Plant. Um litrão de Jack Daniels atenua a sede da rapaziada. De repente, num gole só, o irmão mais novo Steve consome metade da água maldita do Tennessee.

Anoitece no oeste de Los Angeles, o lendário barbecue caminha para o fim. Sentimos o momento de bater em retirada — no dia seguinte, pularíamos cedo da cama para viajar rumo a perdição de Las Vegas.

Na despedida, o cumprimento com Louichi Mayorga é marcado por uma camaradagem sincera. Com a Sunset escura, habitada por vultos matreiros, subimos no carro e partimos.

Três dias depois estaríamos de volta para a Suicidal Tour.

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Arquivado em ST for Life